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Português para Concursos: Pronome Indefinido ou Advérbio?

Publicado por Prof. André


Recentemente, o leitor Elias leite enviou-me uma questão bastante pertinente quanto aos Advérbios e Pronomes Indefinidos. A dúvida foi a seguinte (fiz pequenas adaptações para o contexto do post):

Em caso de dúvida quanto à classificação de uma palavra, prevalece o critério mecânico? Por critério mecânico quero dizer guiar-se simplesmente por regras, ignorando o aspecto do significado (semântico).

Explicando: Eu estudava uma gramática, na parte dos advérbios, onde as autoras (Maria Aparecida Paschoalini e Neuza Terezinha Spadoto) quiseram expor a diferença entre pronome indefinido e advérbio. Eis os exemplos e definições que puseram:

Advérbio: refere-se a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões.

ex.: Eu corri muito. (No caso, “muito” é o advérbio)

Pronome indefinido: relaciona-se a um substantivo e sofre flexões.

ex.: Eu corri muitos quilômetros (No caso, “muitos” é o pronome indefinido. Referiu-se ao substantivo quilômetros e variou em número).

Foi aí que eu “encasquetei”.

Para mim, “eu corri muito” é um exemplo dúbio, que tanto pode significar que eu corri intensamente, como pode significar que corri muitos quilômetros, dependendo de quem fale (eu conheço corredores). Ou seja, se levarmos em conta o critério semântico, em “eu corri muito”, “muito” pode muito bem ser um pronome indefinido.

Mas o que a explicação das autoras me diz é que o critério “mecânico” (como eu o chamo — seria critério sintático?) prevaleceu sobre tudo, ou seja “muito”, no primeiro exemplo, é advérbio sobretudo porque está relacionado ao verbo e porque não varia. E ponto final.

Em outra gramática (Nancy Aragão), exemplos parecidos:

Ela trabalha muito.
Ela cresceu bastante.

Novamente, “tascaram” lá como advérbios, cresceu e bastante.

Observe que as frases acima funcionam da mesma forma como os exemplos anteriores, ou seja, têm sentidos dúbios.

  • Na frase “Ela trabalha muito”, “trabalha muito” pode significar intensidade (pessoa que trabalha intensamente, não faz “corpo mole”) ou quantidade (por exemplo, uma pessoa que trabalha doze horas por dia).
  • Também na frase “Ela cresceu bastante”, “cresceu bastante” pode significar intensidade (cresceu bastante num curto espaço de tempo) ou quantidade (quando uma pessoa não vê outra há muito tempo e admira-se de quanto esta pessoa cresceu).

Então, ver estes exemplos me faz chegar à conclusão de que, aparentemente, o critério “mecânico” (me dê o nome técnico disso, por favor) prevalece, afinal.

Pergunto somente isto, no momento: em última instância, o critério “mecânico” prevalece?

E abaixo segue minha resposta ao Elias. Perceba que essa é uma questão bem complicada da língua e alunos de escola não devem se preocupar com coisas assim, que são direcionadas para quem vai fazer Concursos Públicos.

Primeiramente, quero te falar sobre um conceito muito falado hoje em linguística que chama-se Gramática Tradicional (GT). Esse conceito refere-se à tradição entre os gramáticos mais antigos de querer normatizar, impôr regras fixas à língua.

Como sabemos, toda a língua é viva e evolui, modifica-se o tempo todo nas relações entre os falantes. As gramáticas normativas, que são as gramáticas escritas sob o conceito da GT, são justamente essas que priorizam o que tu chamas “critério mecânico”, o que os linguistas costumam chamar de normas fixas, ou critérios tradicionais, ou relativos à Gramática Tradicional.

Em oposição a essas gramáticas normativas, existem as gramáticas descritivas. Essas, diferentemente das primeiras, fazem uso das regras, mas costumam deixar brechas para aspectos que a GT não explica direito. Isto é, as gramáticas descritivas são mais abertas, menos rígidas e admitem variações relacionadas aos usos da língua.

Pois bem, dito isso, já deu pra perceber que essas gramáticas que tu consultou (desculpe não conjugar o verbo, acho “consultaste” uma forma muito pedante para um e-mail, hehe) são do tipo normativo; tu encontrou, de forma muito inteligente, uma das coisas que elas não explicam. Isso existe pelo simples fato delas serem falhas desde sua criação, ao quererem fixar algo vivo como uma língua.

Então, advérbio ou pronome indefinido? Ao consultar a melhor gramática descritiva que conheço, A Nova Gramática do Português Contemporâneo, do Celso Cunha e Lindley Cintra, encontrei a seguinte observação na parte de apresentação dos advérbios:

Sob a denominação de ADVÉRBIOS reúnem-se, tradicionalmente, numa classe heterogênea, palavras de natureza nominal e pronominal com distribuição e funções às vezes muito diversas. Por esta razão, nota-se entre os lingüistas modernos uma tendência de reexaminar o conceito de advérbio, limitando-o seja do ponto de vista funcional, seja do ponto de vista semântico. Bernard Pottier chega mesmo a eliminar a denominação de seu léxico lingüístico (Cf. Introduction à l’étude de la morphosyntaxe espagnole, 3.ed. Paris, Ediciones Hispanoamericanas, 1964, p.78.)

Ou seja, há divergências até entre os linguistas, sendo que um deles disse que sequer existem advérbios.

Ok, essa é uma resposta científica, mas na prática, em provas, como fica? Infelizmente, todo o sistema de ensino é regido pelas regras impostas pelas gramáticas normativas. Ainda hoje, um aluno que não souber (!) diferenciar um pronome indefinido de um advérbio, será considerado, no mínimo, não competente.

Então, depois de tudo isso, sinto em afirmar que sim, em última instância, o critério mecânico, o critério normativo, prevalece.

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30/03/2009

Gramática

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8 comentários adicionados em “Português para Concursos: Pronome Indefinido ou Advérbio?”

  1. Clerstion Disse:

    Gostaria de aproveitar o tópico para perguntar.
    É certo “Eles serão muito felizes” ? Tem outras opções?

  2. Prof. André Disse:

    Clerstion, não sei se entendi tua pergunta. Outras opções seriam “Eles serão bastante felizes” ou “Eles serão bem felizes”. “bastante”, “muito” e “bem” assumem o papel de advérbios.

  3. Cleriston Disse:

    A duvida era em relação ao grau das palavras muito e feliz.
    Pelo seus exemplos, acho q esta correto “Eles serão muito felizes”

  4. Prof. André Disse:

    Sim, está correto. O “muito” como advérbio é invariável, enquanto o adjetivo “felizes” concorda com o sujeito “Eles”.

  5. Gerlane Disse:

    mt bom este artigo me ajudou bastante, espero ter a oportunidade, de conhecer outros artigos… mt bom mesmo!

  6. Zaíra Pires Disse:

    Por gentileza,

    Os advérbios tem que concordar com o substantivo?

    Por exemplo, na frase “mais de 5 mil estagiários já passaram por capacitações, onde aprendem mais sobre o Acessa Escola”, o advérbio onde, de lugar, está correto?

    E se fosse substituído pela locução “nas quais”?
    “ mais de 5 mil estagiários já passaram por capacitações, nas quais aprendem mais sobre o Acessa Escola”

    Aguardo a resposta.
    Obrigada!

  7. nicolli Disse:

    bom, quando dá para voce flexionar é idefinido. quando não dá é adverbio! simpless

  8. Aracely Disse:

    Bom, a explicação está espetacular, mas a dúvida ainda paira para aqueles que irão prestar concursos públicos. Como posso difereciar o BASTANTE de Advérbio ou Pronome Indefinido !? Ex.: Ela usa BASTANTE batom. O porquê dele ser pronome !? Agradeço antecipadamente se puder me responder.

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