Acontece muito quando enviamos um e-mail:

1. O documento segue em anexo

2. As fotos estão no anexo.

3. A foto está anexa.

Qual o jeito certo de usar? É bem simples.

Anexo é um adjetivo, portanto, ele deve combinar com o nome ao qual se refere. Assim, das frases acima, apenas a número 3 está correta, do ponto de vista da língua padrão.

Na número 1 é usada a expressão “em anexo” que, apesar de bastante usada, não é da índole portuguesa, já que é formada por uma preposição seguida de um adjetivo.

Na número 2 o adjetivo anexo é usado como se fosse um substantivo.

A número 3 está certa, pois anexa concorda com o substantivo foto.

Mais exemplos de uso correto:

Os documentos seguem anexos.

A nota fiscal remeto anexa.

Uma dúvida bastante comum que vejo por aí é quanto ao uso do advérbio meio e do adjetivo meia.

Como não confundir? É bem simples: meio = mais ou menos; meia =  metade.

É só substituir. Veja:

Meio-dia e mais ou menos.

Meio-dia e metade [da hora].

Assim fica claro que a forma certa é Meio-dia e meia, já que esse meia refere-se à metade de uma hora.

Hoje, uma aula do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura. Na primeira parte, o professor Pasquale fala do caso de acentuação da palavra que (ou quê) e, na segunda, explica uma questão de concordância nominal nas expressões é proibido/é proibida.

Mais abaixo segue a transcrição da aula para quem não puder ver o vídeo ou desejar ter um material sempre a mão.

Transcrição da aula

Primeira parte: Quando é que se coloca acento na palavra que?

A palavra que você sabe que é uma sílaba só, é um monossílabo. E os monossílabos têm acento quando terminam em “A”, quando terminam em “E”, quando terminam em “O”, quando terminam em “AS”, “ES”, “OS”.

Mas é preciso que sejam tônicos.

Então, por exemplo: , , , , , , nós, mês, pés, pás — não paz, antônimo de guerra, pás, plural de . Tudo isso tem acento. Monossílabos tônicos terminados em “A”, “E”, “O”, “AS”, “ES”, “OS”, têm acento.

Acontece que a palavra que nem sempre tem acento porque nem sempre funciona como monossílabo tônico. Aliás, quase sempre funciona como monossílabo átono:

“Eu quero que você me diga”

“Eu quero que você me diga”

“Eu quero que você me diga”

Note que esse que é lido como qui; é fraquinho, quase não se ouve, quase não se percebe.

“Eu quero qui você me diga”

“Eu quero qui você me diga”

Esse “e” é átono, tanto é átono que vira “i”. A palavra que — no caso uma conjunção, está aí unindo orações — é um monossílabo átono. E se é um monossílabo átono não tem tonicidade, não tem força. Nem pensar em colocar acento.

Mas eu disse que às vezes a coisa é diferente. Eu vou mostrar a você uma canção,  uma canção muito conhecida, uma canção que já apareceu aqui no Nossa Língua Portuguesa para um outro assunto. Marisa Monte, por favor, cante pra gente.

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

“Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Você acha que esse quê é dito, é pronunciado como aquele outro que que eu mencionei antes? Aquele que assim: “Eu quero que você me faça um favor”, “Eu quero qui…”. Esse “que” fraquiiinho que vira “qui”, que quase não se ouve?

Claro que não.

Esse quê da canção que a Marisa cantou pra nós é quê. É a última palavra da frase, e é tônico, é quê. “Você tem fome de quê?”

Então, se é tônico, passa a ser um monossílabo tônico. E monossílabos tônicos, como eu disse, qual é a regra mesmo? Terminando em “A(s)”, “E(s)”, “O(s)”, o que acontece? Acento. No caso, acento circunflexo porque o som é fechado. “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

Uma dica super concreta: a palavra que sendo a última da frase acaba sendo tônica, acaba virando tônica; e aí o acento é de lei.

Vamos ouvir uma outra canção pra ver o que acontece. Vamos lá:

Porque eu só faço com você
só quero com você

Só gosto com você
Adivinha o quê?

A mesma história. O Lulu Santos cantou aí “Adivinha o quê?” E aí vem um quê que é tônico, que é forte, que é a última palavra da frase, transforma-se num monossílabo tônico e tem acento.

Uma última dica, bem rapidinho.

Ela tem um quê de…
Ela tem um quê…
Ela tem um ar…

A palavra quê, no caso, vira substantivo e é sinônimo da palavra ar, nesse sentido figurado:

Ela tem um quê…
Ela tem um ar…
Ela tem um jeito…

E aí, sendo substantivo, claro que é monossílabo tônico, claro que leva acento.

Ela tem um quê de poderosa.
Ela tem um quê de misteriosa.

Esse quê, com esse significado, também recebe acento. É isso.

Segunda parte

Você vai a um edifício comercial, a uma sala de alguém que você não conhece, uma coisa mais formal. Uma tabuleta ali: É proibido entrada.

Numa outra sala: É proibido a entrada.

Numa outra sala: É proibida a entrada.

E numa outra sala: É proibida entrada.

E aí você descobre que é proibido tentar entender, porque a confusão é tão grande que pelo amor de Deus, né…

Aliás o povo também se atrapalha um pouco, vamos ver o que acontece:

[Entrevista com transeuntes, perguntando qual seria a forma certa]

E aí, você fez a conta? Eu não fiz.

A produção revisou que no primeiro caso [É permitido/permitida a entrada?] houve empate, e no segundo caso [É proibido/é proibida] parece que houve uma vitória, mas eu já esqueci de quem foi. Não importa.

Importa que isso realmente é complicado, mas é fácil entender o funcionamento da coisa.

Como é que você diz, naquele dia de calor, muito calor, aquele primeiro gole de cerveja? Como você fala?

Cerveja é bom.

Ou num dia de frio.

Sopa é bom.

E se você disser “A sopa…”, ou “A cerveja…”? O que é que você vai dizer?

A sopa é boa.
A cerveja é boa.
Esta sopa é boa.
Esta cerveja é boa.
Nossa sopa é boa.
Nossa cerveja é boa.
Sua sopa é boa.
Sua cerveja é boa.

Mas “Cerveja é bom”, “Sopa é bom”.

Quando se generaliza, quando não se determina, não se faz a concordância, usa-se o masculino — no caso “bom” — masculino com valor genérico, com valor neutro.

Então é isso. Se “Sopa é bom”, se “Cerveja é bom”:

Entrada é proibido.
É proibido entrada.
Não é permitido entrada.

Se não existe o artigo — no caso, não se diz “A entrada”, ou não se usa nenhum outro determinante, um pronome, por exemplo: “Esta entrada”, “Sua entrada”, “Minha entrada” — se você diz “Entrada”, a seco, “Entrada”, não há a concordância.

Entrada é proibido.
É permitido entrada.
Não é permitido entrada.
Cerveja é bom.
É bom cerveja.

Se você diz “A cerveja é boa”, “A sopa é boa”:

A entrada é permitida.
A entrada é proibida.
É proibida a entrada.
Não é permitida a entrada.

Resumindo:

Entrada é proibido.
É permitido entrada.
A entrada é proibida.
É proibida a entrada.