Com o Acordo ou Reforma ortográfica, muitos acentos nas palavras não existem mais. É o caso da palavra chapéu?

Não! A palavra chapéu continua com acento, pois a Reforma Ortográfica fez mudar apenas os ditongos abertos “ei” e “oi” das palavras paroxítonas. Isso quer dizer que palavras como assembléia, heróico e idéia não têm mais acento, mas, ao contrário, palavras como chapéu, herói, céu e outras continuam acentuadas.

Recentemente, o leitor Elias leite enviou-me uma questão bastante pertinente quanto aos Advérbios e Pronomes Indefinidos. A dúvida foi a seguinte (fiz pequenas adaptações para o contexto do post):

Em caso de dúvida quanto à classificação de uma palavra, prevalece o critério mecânico? Por critério mecânico quero dizer guiar-se simplesmente por regras, ignorando o aspecto do significado (semântico).

Explicando: Eu estudava uma gramática, na parte dos advérbios, onde as autoras (Maria Aparecida Paschoalini e Neuza Terezinha Spadoto) quiseram expor a diferença entre pronome indefinido e advérbio. Eis os exemplos e definições que puseram:

Advérbio: refere-se a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões.

ex.: Eu corri muito. (No caso, “muito” é o advérbio)

Pronome indefinido: relaciona-se a um substantivo e sofre flexões.

ex.: Eu corri muitos quilômetros (No caso, “muitos” é o pronome indefinido. Referiu-se ao substantivo quilômetros e variou em número).

Foi aí que eu “encasquetei”.

Para mim, “eu corri muito” é um exemplo dúbio, que tanto pode significar que eu corri intensamente, como pode significar que corri muitos quilômetros, dependendo de quem fale (eu conheço corredores). Ou seja, se levarmos em conta o critério semântico, em “eu corri muito”, “muito” pode muito bem ser um pronome indefinido.

Mas o que a explicação das autoras me diz é que o critério “mecânico” (como eu o chamo — seria critério sintático?) prevaleceu sobre tudo, ou seja “muito”, no primeiro exemplo, é advérbio sobretudo porque está relacionado ao verbo e porque não varia. E ponto final.

Em outra gramática (Nancy Aragão), exemplos parecidos:

Ela trabalha muito.
Ela cresceu bastante.

Novamente, “tascaram” lá como advérbios, cresceu e bastante.

Observe que as frases acima funcionam da mesma forma como os exemplos anteriores, ou seja, têm sentidos dúbios.

  • Na frase “Ela trabalha muito”, “trabalha muito” pode significar intensidade (pessoa que trabalha intensamente, não faz “corpo mole”) ou quantidade (por exemplo, uma pessoa que trabalha doze horas por dia).
  • Também na frase “Ela cresceu bastante”, “cresceu bastante” pode significar intensidade (cresceu bastante num curto espaço de tempo) ou quantidade (quando uma pessoa não vê outra há muito tempo e admira-se de quanto esta pessoa cresceu).

Então, ver estes exemplos me faz chegar à conclusão de que, aparentemente, o critério “mecânico” (me dê o nome técnico disso, por favor) prevalece, afinal.

Pergunto somente isto, no momento: em última instância, o critério “mecânico” prevalece?

E abaixo segue minha resposta ao Elias. Perceba que essa é uma questão bem complicada da língua e alunos de escola não devem se preocupar com coisas assim, que são direcionadas para quem vai fazer Concursos Públicos.

Primeiramente, quero te falar sobre um conceito muito falado hoje em linguística que chama-se Gramática Tradicional (GT). Esse conceito refere-se à tradição entre os gramáticos mais antigos de querer normatizar, impôr regras fixas à língua.

Como sabemos, toda a língua é viva e evolui, modifica-se o tempo todo nas relações entre os falantes. As gramáticas normativas, que são as gramáticas escritas sob o conceito da GT, são justamente essas que priorizam o que tu chamas “critério mecânico”, o que os linguistas costumam chamar de normas fixas, ou critérios tradicionais, ou relativos à Gramática Tradicional.

Em oposição a essas gramáticas normativas, existem as gramáticas descritivas. Essas, diferentemente das primeiras, fazem uso das regras, mas costumam deixar brechas para aspectos que a GT não explica direito. Isto é, as gramáticas descritivas são mais abertas, menos rígidas e admitem variações relacionadas aos usos da língua.

Pois bem, dito isso, já deu pra perceber que essas gramáticas que tu consultou (desculpe não conjugar o verbo, acho “consultaste” uma forma muito pedante para um e-mail, hehe) são do tipo normativo; tu encontrou, de forma muito inteligente, uma das coisas que elas não explicam. Isso existe pelo simples fato delas serem falhas desde sua criação, ao quererem fixar algo vivo como uma língua.

Então, advérbio ou pronome indefinido? Ao consultar a melhor gramática descritiva que conheço, A Nova Gramática do Português Contemporâneo, do Celso Cunha e Lindley Cintra, encontrei a seguinte observação na parte de apresentação dos advérbios:

Sob a denominação de ADVÉRBIOS reúnem-se, tradicionalmente, numa classe heterogênea, palavras de natureza nominal e pronominal com distribuição e funções às vezes muito diversas. Por esta razão, nota-se entre os lingüistas modernos uma tendência de reexaminar o conceito de advérbio, limitando-o seja do ponto de vista funcional, seja do ponto de vista semântico. Bernard Pottier chega mesmo a eliminar a denominação de seu léxico lingüístico (Cf. Introduction à l’étude de la morphosyntaxe espagnole, 3.ed. Paris, Ediciones Hispanoamericanas, 1964, p.78.)

Ou seja, há divergências até entre os linguistas, sendo que um deles disse que sequer existem advérbios.

Ok, essa é uma resposta científica, mas na prática, em provas, como fica? Infelizmente, todo o sistema de ensino é regido pelas regras impostas pelas gramáticas normativas. Ainda hoje, um aluno que não souber (!) diferenciar um pronome indefinido de um advérbio, será considerado, no mínimo, não competente.

Então, depois de tudo isso, sinto em afirmar que sim, em última instância, o critério mecânico, o critério normativo, prevalece.

Acontece muito quando enviamos um e-mail:

1. O documento segue em anexo

2. As fotos estão no anexo.

3. A foto está anexa.

Qual o jeito certo de usar? É bem simples.

Anexo é um adjetivo, portanto, ele deve combinar com o nome ao qual se refere. Assim, das frases acima, apenas a número 3 está correta, do ponto de vista da língua padrão.

Na número 1 é usada a expressão “em anexo” que, apesar de bastante usada, não é da índole portuguesa, já que é formada por uma preposição seguida de um adjetivo.

Na número 2 o adjetivo anexo é usado como se fosse um substantivo.

A número 3 está certa, pois anexa concorda com o substantivo foto.

Mais exemplos de uso correto:

Os documentos seguem anexos.

A nota fiscal remeto anexa.

Uma dúvida bastante comum que vejo por aí é quanto ao uso do advérbio meio e do adjetivo meia.

Como não confundir? É bem simples: meio = mais ou menos; meia =  metade.

É só substituir. Veja:

Meio-dia e mais ou menos.

Meio-dia e metade [da hora].

Assim fica claro que a forma certa é Meio-dia e meia, já que esse meia refere-se à metade de uma hora.

Com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o acento circunflexo (o conhecido chapeuzinho do vovô) não será mais usado em palavras terminadas em oo. Assim, palavras como…

  • enjôo
  • vôo
  • abençôo
  • corôo
  • magôo
  • perdôo

…vão perder o chapéu.

Da mesma forma, o circunflexo não será mais usado nos verbos crer, dar, ler e ver quando referindo-se a “eles” (terceira pessoa do plural). Assim:

  • crêem: passa a ser creem
  • dêem: vira deem
  • lêem → leem
  • vêem → veem
  • descrêem → descreem
  • relêem → releem
  • revêem → reveem

A EXCEÇÃO é para os verbos ter e vir, que continuam com acento no plural: eles têm, eles vêm.

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