Vídeo aula: acentuação que/quê – concordância é proibido/é proibida

Escrito por em Escrever melhor: Básico | Gramática

Hoje, uma aula do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura. Na primeira parte, o professor Pasquale fala do caso de acentuação da palavra que (ou quê) e, na segunda, explica uma questão de concordância nominal nas expressões é proibido/é proibida.

Mais abaixo segue a transcrição da aula para quem não puder ver o vídeo ou desejar ter um material sempre a mão.

Transcrição da aula

Primeira parte: Quando é que se coloca acento na palavra que?

A palavra que você sabe que é uma sílaba só, é um monossílabo. E os monossílabos têm acento quando terminam em “A”, quando terminam em “E”, quando terminam em “O”, quando terminam em “AS”, “ES”, “OS”.

Mas é preciso que sejam tônicos.

Então, por exemplo: , , , , , , nós, mês, pés, pás — não paz, antônimo de guerra, pás, plural de . Tudo isso tem acento. Monossílabos tônicos terminados em “A”, “E”, “O”, “AS”, “ES”, “OS”, têm acento.

Acontece que a palavra que nem sempre tem acento porque nem sempre funciona como monossílabo tônico. Aliás, quase sempre funciona como monossílabo átono:

“Eu quero que você me diga”

“Eu quero que você me diga”

“Eu quero que você me diga”

Note que esse que é lido como qui; é fraquinho, quase não se ouve, quase não se percebe.

“Eu quero qui você me diga”

“Eu quero qui você me diga”

Esse “e” é átono, tanto é átono que vira “i”. A palavra que — no caso uma conjunção, está aí unindo orações — é um monossílabo átono. E se é um monossílabo átono não tem tonicidade, não tem força. Nem pensar em colocar acento.

Mas eu disse que às vezes a coisa é diferente. Eu vou mostrar a você uma canção,  uma canção muito conhecida, uma canção que já apareceu aqui no Nossa Língua Portuguesa para um outro assunto. Marisa Monte, por favor, cante pra gente.

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

“Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Você acha que esse quê é dito, é pronunciado como aquele outro que que eu mencionei antes? Aquele que assim: “Eu quero que você me faça um favor”, “Eu quero qui…”. Esse “que” fraquiiinho que vira “qui”, que quase não se ouve?

Claro que não.

Esse quê da canção que a Marisa cantou pra nós é quê. É a última palavra da frase, e é tônico, é quê. “Você tem fome de quê?”

Então, se é tônico, passa a ser um monossílabo tônico. E monossílabos tônicos, como eu disse, qual é a regra mesmo? Terminando em “A(s)”, “E(s)”, “O(s)”, o que acontece? Acento. No caso, acento circunflexo porque o som é fechado. “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

Uma dica super concreta: a palavra que sendo a última da frase acaba sendo tônica, acaba virando tônica; e aí o acento é de lei.

Vamos ouvir uma outra canção pra ver o que acontece. Vamos lá:

Porque eu só faço com você
só quero com você

Só gosto com você
Adivinha o quê?

A mesma história. O Lulu Santos cantou aí “Adivinha o quê?” E aí vem um quê que é tônico, que é forte, que é a última palavra da frase, transforma-se num monossílabo tônico e tem acento.

Uma última dica, bem rapidinho.

Ela tem um quê de…
Ela tem um quê…
Ela tem um ar…

A palavra quê, no caso, vira substantivo e é sinônimo da palavra ar, nesse sentido figurado:

Ela tem um quê…
Ela tem um ar…
Ela tem um jeito…

E aí, sendo substantivo, claro que é monossílabo tônico, claro que leva acento.

Ela tem um quê de poderosa.
Ela tem um quê de misteriosa.

Esse quê, com esse significado, também recebe acento. É isso.

Segunda parte

Você vai a um edifício comercial, a uma sala de alguém que você não conhece, uma coisa mais formal. Uma tabuleta ali: É proibido entrada.

Numa outra sala: É proibido a entrada.

Numa outra sala: É proibida a entrada.

E numa outra sala: É proibida entrada.

E aí você descobre que é proibido tentar entender, porque a confusão é tão grande que pelo amor de Deus, né…

Aliás o povo também se atrapalha um pouco, vamos ver o que acontece:

[Entrevista com transeuntes, perguntando qual seria a forma certa]

E aí, você fez a conta? Eu não fiz.

A produção revisou que no primeiro caso [É permitido/permitida a entrada?] houve empate, e no segundo caso [É proibido/é proibida] parece que houve uma vitória, mas eu já esqueci de quem foi. Não importa.

Importa que isso realmente é complicado, mas é fácil entender o funcionamento da coisa.

Como é que você diz, naquele dia de calor, muito calor, aquele primeiro gole de cerveja? Como você fala?

Cerveja é bom.

Ou num dia de frio.

Sopa é bom.

E se você disser “A sopa…”, ou “A cerveja…”? O que é que você vai dizer?

A sopa é boa.
A cerveja é boa.
Esta sopa é boa.
Esta cerveja é boa.
Nossa sopa é boa.
Nossa cerveja é boa.
Sua sopa é boa.
Sua cerveja é boa.

Mas “Cerveja é bom”, “Sopa é bom”.

Quando se generaliza, quando não se determina, não se faz a concordância, usa-se o masculino — no caso “bom” — masculino com valor genérico, com valor neutro.

Então é isso. Se “Sopa é bom”, se “Cerveja é bom”:

Entrada é proibido.
É proibido entrada.
Não é permitido entrada.

Se não existe o artigo — no caso, não se diz “A entrada”, ou não se usa nenhum outro determinante, um pronome, por exemplo: “Esta entrada”, “Sua entrada”, “Minha entrada” — se você diz “Entrada”, a seco, “Entrada”, não há a concordância.

Entrada é proibido.
É permitido entrada.
Não é permitido entrada.
Cerveja é bom.
É bom cerveja.

Se você diz “A cerveja é boa”, “A sopa é boa”:

A entrada é permitida.
A entrada é proibida.
É proibida a entrada.
Não é permitida a entrada.

Resumindo:

Entrada é proibido.
É permitido entrada.
A entrada é proibida.
É proibida a entrada.

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14 respostas

  • Marcos César

    Amigos do Português Fácil gostaria de agradecer a inciativa de vocês por este belo trabalho. Atualmente estudo para concursos públicos e leio diariamente seus e-mail a respeito da língua portuguesa. Parabéns a vocês todos. Gostaria de aproveitar a oportunidade e sugerir a vocês para colocar no final de cada e-mail um exercicio com algumas poucas questões e no final o gabarito das mesmas, assim poderiamos testar de forma mais profunda nosso conhecimento. Obrigado

  • Josiane

    Olá!!

    Proibida entrada está errado né?????

    ;)

  • maiane

    Parabéeens pelo trabalho de vcs me ajudaram muito.

  • Jorge

    Ótima essa dica do que/quê.

  • Debora Fleck

    Prezados,

    Está ótima a explicação sobre o uso do “que”, mas continuo com uma dúvida:

    Nos casos “Para que perder tempo descansando, se ela estava ótima?” e “E para que ela havia tomado aquele remédio?” o “que” leva ou não o acento?

    Entendo que nesses dois casos o “que” é tônico, mas ele não se encaixa em nenhum dos exemplos dados pelo professor em que o “que” é acentuado no meio da frase.

    obrigada,

    abçs,
    Debora.

  • George Cimadon

    Olá! Tenho as mesmas dúvidas que a Debora Fleck, somadas a uma outra: quando construo a seguinte frase: “O que?” Devo acentuar a palavra “que”?
    No meu caso, a frase é título, um tópico dentro de um manual. É o tópico onde explicarei do que trata esse manual. Quero utilizar esse título mas não estou convencido de que devo acentuá-lo. Por favor, vocês podem me ajudar? Muito obrigado!
    Abraços.
    George

  • Macela

    Gostaria de receber atualizações/ comentários sobre a língua portuguesa. Adorei o site!

  • gersica

    Obrigada pelas dicas ..
    Gostaria de receber atualizaçoes da língua portuguesa.

  • wyldemberg

    Muito obrigado ! me ajudou muito .. fique com deus

  • Ana Lúcia

    No caso da acentuação, ou não, do quê, qual é o correto nesta frase: Para que ele quer fazer isso? Será “para quê” ou “para que”?

    obrigada.

  • uma aula perfeitamente ensinada
    q abriu minha mente

  • Alan Roberto

    Então quando não há artigo nos termos “proibido, necessário, permitido” ficam invariáveis??? mesmo quando antecedidos de substantivos no plural??
    Ex: Não é permitido rasuras no livro ou
    Não são permitidas rasuras no livro.
    Qual é o correto???

  • Celma de barros

    Adorei porque tirei as minhas duvidas.

  • Lia Maria

    Não foi claro para todos os usos. Faltou o caso de ‘o que/oquê’ como sendo dois pronomes:
    o= pronome demonstrativo ( isso, isto, aquilo, etc.) e não artigo definido, portanto não seguido de um substantivo.
    que = pronome relativo.

    Ex: Não entendi o que disse/Não entendi isto que disse. Sendo ‘que’ pronome relativo seria não acentuado, independentemente da pronúncia.

    Há pessoas que dizem /o quE/, há pessoas que dizem /o qui/, sobretudo quem fala muito depressa. Depende até de sotaques regionais o /e/ ser ou não pronunciado /i/.[ leite quente/ leiti quenti/] em monossílabos ou não… Então o truque de falar sempre /quE/ pode não valer sempre.

    Em posição final ou inicial não há muito problema para saber, o nó górdio é sempre quando está no meio da frase, com ou sem vírgulas, mesmo quando se trata do caso mais simples da interrogativa indireta .
    (a) Por que você está triste?
    (b) Você está triste por quê?
    Não entendi por que está triste. (indireta)

    Mas em:” Quero saber por que, meu filho, você está triste?”, uns dizem acentuar por considerar a vírgula pontuação; outros só defendem acentuação em posição final com pontuação de interrogação.



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